novos olhares
sobre
inovação jurídica

A diferença entre machismo e feminismo: encarando o bicho-papão corporativo

Pautas sociais são o bicho-papão da comunicação corporativa: “vamos ter alguma ação?”, “o que postar?”, “não queremos polemizar” , “melhor ir no simples”, “preferimos não abordar”. 

Ano após ano, desde que iniciei minha carreira profissional, venho observando que a compreensão e o letramento sobre esses temas têm pouco ou quase nada a ver com o nível de erudição e conhecimento acadêmico. E aí, como acontece com tudo o que desconhecemos, o medo prevalece, paralisando ações e colocando até grandes mentes no modo irracional.

Nesse dia das mulheres, eu acredito que um enorme presente para todas nós seria uma onda gigante de entendimento sobre as definições de feminismo e machismo.

Meu objetivo aqui é esse: convido você a uma leitura informativa para ter mais segurança na hora de emitir uma opinião sobre esses assuntos, construindo um raciocínio próprio, sem cair em nenhum tipo de senso comum e fugindo das frases de efeito (tão frequentes quanto vazias) que a toda hora nos deparamos, em especial nas redes sociais, e que muitas vezes são colocadas como se fossem argumentos nas mesas de tomada de decisão, mas são apenas demonstrativos de falta de conhecimento sobre o tema.

Feminismo não é o contrário de machismo

O conceito do machismo está ligado a sistemas antigos de organização social baseados no patriarcado e se apoia na ideia de que o masculino é norma e superior, naturalizando desigualdades. 

Enquanto o feminismo surge como reação crítica a isso, buscando a igualdade de direitos entre homens e mulheres e defendendo a equidade como estratégia para corrigir desigualdades históricas e estruturais.

O principal exemplo prático na sociedade brasileira

O Estatuto da Mulher Casada (lei 4.121 de 27 de agosto de 1962): antes dessa lei, as mulheres precisavam de autorização formal de seus maridos para poder trabalhar, não tinham autonomia total sobre seus bens particulares (inclusive os frutos do seu trabalho), precisavam de autorização formal para viajar, entre muitas outras subordinações. 

“A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo.” BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo.

Ou seja, no Brasil, apenas após 1962 os maridos deixaram de ser os chefes absolutos na sociedade conjugal perante a lei. Uma evidência de como o machismo de uma sociedade patriarcal coloca o masculino como superior, gerando desigualdades. E de como o feminismo é importante para corrigir isso e conquistar direitos que não são superiores, mas apenas iguais.

Portanto, o feminismo não pode e nem deve ser colocado como “o contrário do machismo”, pois não apresenta ideias opostas equivalentes, uma vez que não visa a superioridade feminina. Mas, sim, um movimento antagônico.

Por que ouvimos que é um problema estrutural?

Enquanto o feminismo surgiu, principalmente entre os séculos XVIII e XIX, em consequência das transformações políticas da sociedade moderna. O patriarcado, sistema social no qual homens exercem poder predominante sobre mulheres nas esferas familiar, política e econômica, existe há milênios em diferentes sociedades. Isso faz com que a dominação masculina não dependa mais apenas de força ou leis, pois se incorporou na cultura, nas instituições e na forma como pensamos o mundo.

“A dominação masculina encontra reunidas todas as condições de seu pleno exercício; ela se perpetua porque está inscrita nas estruturas objetivas e nas estruturas cognitivas da sociedade.” BORDIEU, Pierre. A dominação masculina.

Enxergamos os papéis sociais como se fossem naturais e inerentes ao gênero, quando na verdade são construções sociais que internalizamos como normas e reproduzimos de forma automática e, muitas vezes, até inconsciente.

Entre tantas outras associações, por exemplo, nós condicionamos liderança ao masculino e cuidado ao feminino. Essas visões enraizadas fazem com que a dominação masculina não precise ser explicitamente defendida em discursos porque já faz parte da nossa estrutura social.

Abrindo o armário do bicho-papão nas empresas

O bicho-papão é um monstro imaginário que representa o medo noturno, ele se esconde em armários ou debaixo da cama e tem o poder de se transformar naquilo que cada criança mais teme. Paralisadas pelo medo, o monstro as engole.

Essa é uma boa alegoria para o que acontece até hoje nas empresas quando estão diante de temas sociais; algumas se arriscam sem preparo e são engolidas por temas como feminismo ou racismo, e outras, com medo de ficarem paralisadas e terem o mesmo fim, preferem nem abrir o armário. 

O resultado são os dias das mulheres celebrados com flores, bombons, líderes que dizem que não são feministas (e agora você sabe que isso significa ser contra direitos iguais para mulheres e homens), frases vazias, poemas de gosto questionável, colegas de trabalho perguntando por qual motivo não existe o “dia do homem”…Ou o silêncio.

Não é difícil perder o medo do bicho-papão se você souber como encará-lo. E agora você já sabe.

Ações úteis para o Dia das Mulheres

Você pode trocar a flor e o chocolate por:

  • Workshop de Comunicação Consciente no Ambiente de Trabalho: para homens e mulheres com o objetivo de incentivar interações mais saudáveis, evitando práticas comuns inconscientes que acabam sendo micro agressões para as mulheres;
  • Workshop de Autonomia Emocional – Identificando Relações Abusivas: para ajudar as mulheres na tomada de consciência de práticas abusivas em relacionamentos que podem estar sofrendo sem saber, e que atrapalham inclusive o desempenho profissional;
  • Campanha contra Violência Doméstica: deixando claro que a empresa não é conivente com a violência à mulher, e que ela pode encontrar apoio na instituição;
  • Programa de Desenvolvimento de Lideranças Femininas: como vimos, essa é uma função historicamente atribuída aos homens, por isso, a maior parte das mulheres não foi incentivada desde criança a desenvolver habilidades e a segurança necessárias para ocupar essas posições;
  • Livros Transformadores: incentive a busca por conhecimento, ajude a inspirar!

E, principalmente, comece por você. Se você for uma mulher, exerça a sororidade. E se for um homem, observe como você trata, inclusive intelectualmente, as mulheres que trabalham com você e os julgamentos que faz sobre elas… Por fim, não seja conivente quando identificar atitudes que atrapalham nosso avanço como sociedade. Esse é um exercício para todos nós!