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A IA, seus livros não lidos e decisões que não podem esperar

Um Kindle lotado, uns carrinhos abertos, vários artigos salvos naquela pasta especial e uma prateleira com livros muito bem recomendados. Eles estão lá, pacientes e cheios de boas intenções, apesar do fato de que alguns ainda não foram nem abertos e outros estão com marcador na página 32.

E não é que a IA vá substituí-los, ou que vá substituir as cabeças pensantes que os criaram, mas ela (que já leu todos) topa conversar sobre isso com você.

Parando de fumar com IA (ou mudando qualquer hábito pessoal ou de um negócio)

Hábitos Atômicos, de James Clear, é quase uma entidade abstrata: todo mundo conhece, todo mundo recomenda, nem todo mundo leu inteiro.

A ideia central, em poucas palavras: mudanças consistentes acontecem quando você mexe no sistema, não quando depende de motivação de ano novo. A teoria é clara, e o desafio também: como sair do entendimento e ir para a aplicação, especialmente quando a rotina real insiste em não colaborar?

É exatamente nesse intervalo entre “entendi a ideia” e “agora como eu faço isso funcionar na minha vida?” que a IA entra. A conversa muda porque o livro deixa de ser um conteúdo a ser compreendido e passa a funcionar como uma ferramenta para aplicação quase instantânea de teorias e metodologias variadas às mais diferentes realidades. 

Focando no lado bom disso, com um prompt bem elaborado, a IA organiza e prioriza o que importa, aplicando tudo ao contexto que mais interessa: o seu. Com suas restrições, seus vícios (literais ou não) e sua rotina real.

Num exemplo simples, em vez de tentar absorver o livro inteiro, você pode pedir algo como: “Use os princípios de Hábitos Atômicos para criar um plano prático para parar de fumar considerando rotina intensa, viagens frequentes e alto nível de estresse.”

O que acontece depois é interessante: o conteúdo do livro aparece reestruturado em decisões pequenas, ações possíveis e ajustes de ambiente. Menos teoria, mais prática.

Troque “parar de fumar” por “mudar X na cultura interna”, “implementar uma nova ferramenta Y” ou “ajustar o processo Z” e o raciocínio é exatamente o mesmo. Negócios também são feitos de hábitos, só que coletivos, repetidos em reuniões, rituais e decisões diárias tomadas em várias instâncias.

Apresentações claras e persuasivas: storytelling com IA

Agora vamos para um clássico corporativo: boas ideias assassinadas por apresentações ruins.

Uma das saídas está em um conhecimento sistematizado e pela consultoria global McKinsey, o framework SCR. Ele parte de um princípio básico (e frequentemente ignorado) no mundo corporativo: ninguém decide antes de entender a história.

O SCR serve para ajudar a organizar ideias de forma lógica e persuasiva. Primeiro, descreve a Situação: onde estamos, quais são os fatos, o contexto e os dados relevantes. Depois, a Complicação: o que está em jogo, o problema real, o risco de seguir exatamente como está. Por fim, a Resolução: a proposta, a decisão, o caminho a seguir.

Na prática, imagine uma apresentação para um conselho pleiteando investimento na área de comunicação. Em vez de começar pedindo orçamento, você começa mostrando o cenário atual da marca no mercado (Situação), evidencia como a falta de clareza de posicionamento está impactando crescimento, percepção ou competitividade (Complicação) e só então apresenta a comunicação como solução estratégica – não como custo, mas como resposta lógica ao problema apresentado (Resolução).

Com a IA, esse tipo de estrutura deixa de ser um conceito teórico e passa a ser aplicado sob demanda. O impacto vem, principalmente, de saber fazer boas perguntas e entender o que merece ser dito e o que deve ser deixado de fora – o que é papel humano, já que pressupõe repertório, leitura de cenário, sensibilidade política, clareza narrativa e entendimento profundo de quem está do outro lado da mesa.

Afinal, a IA já leu tudo o que cabe num carrinho ou na nuvem, mas não leu as sutilezas das pessoas e dos negócios, e nem todos os detalhes que vivem fora do mundo digital.

P.S. Um salve ao professor Pedro Calais, que me ensinou como usar a IA dessas e de outras formas práticas no curso GUIA – Gestão com Uso de IA, criado pelo Órbi Conecta (que promete uma segunda edição em breve).